Madre Glória nasceu Helena de Freitas Guimarães em 25/03/1907 em Campinas, filha de Francisco de Freitas Guimarães e de Dona Albertina de Oliveira Freitas Guimarães. Única menina em meio aos seis irmãos. Aos 6 anos mudou-se com a família para Santos. Inteligente e autodidata, a menina aprendeu os idiomas inglês e francês e, desde cedo, demonstrou interesse em aprofundar seus estudos. Comunicativa, alegre e espontânea passou a dedicar-se à caridade e à assistência aos menos favorecidos.

Helena cursou o ginásio em colégio de freiras e viu surgir lentamente sua vocação religiosa. Aos 20 anos de idade entrou para o convento e, em 1928, viajou para Bélgica para estudar e se tornar Madre Glória, lá permanecendo por mais 5 anos. Em 1933 retornou ao Brasil e estabeleceu-se em São Paulo, no colégio Santo Agostinho. Em 1942 foi para Recife onde permaneceu desempenhando trabalhos religiosos até 1950. Depois a madre retornou à cidade de Santos, como professora da escola de congregação.
Em 1956, Madre Glória seguiu para Ubatuba, acompanhando a irmã Jane. Naquela época, a viagem de São Paulo para Ubatuba demorava cerca de sete horas, quando não parava no caminho à espera de socorro. As estradas eram péssimas. Para Taubaté, cinco horas de jardineira. Parava-se em toda bica d’água para colocar água no motor, além dos pulos dentro da jardineira. Em 26 de dezembro de 1956, por iniciativa de Dom Paulo, Bispo de Santos, realizou-se um movimento em busca do auxílio do então Governador Jânio Quadros para a construção do primeiro prédio da entidade religiosa, onde funcionou posteriormente um internato para sessenta alunas e também cursos de externato. Foi a fundadora da primeira escola de artes e música de Ubatuba, localizada na Rua Maria Alves.
Foi a fundadora da ALA de Ubatuba (Congregação de Nossa Senhora das Cônegas de Santo Agostinho), espécie de caravana de auxílio às populações litorâneas. A Irmã visitava um povoado em um dia, no outro dia uma praia distante, em outro dia um agrupamento perdido na encosta da Serra do Mar, em seguida estava em comunidades tradicionais distantes, sempre auxiliando a todos. Viajava de barco com os pescadores para conhecer os habitantes das ilhas que avistava ao longe. Era uma andarilha. Gostava de ouvir os causos e as histórias sobre os indígenas e os personagens folclóricos. Sempre com o olhar curioso sobre as ruínas que marcavam o passado glorioso daquelas paisagens. Fez amizade e conheceu muita gente. Teceu laços com todos, principalmente com os pobres que faziam questão de cumprimentá-la nas ruas por onde a avistavam.

Visitar as praias mais afastadas era uma aventura, e ela viajava de barco, a pé, ou mesmo de carona na charrete do professor Joaquim Lauro para o Saco da Ribeira, Lázaro e Praia Dura. No Corcovado, deu aulas de catecismo e visitou muitas escolas de Paraty, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilha Bela. Madre Glória também deu aulas de canto, de pintura, de francês e desde a sua chegada a Ubatuba, se ocupou com os presos. A cadeia localizada na Praça Nóbrega, tinha três celas, uma para homens, uma para mulheres e uma para os “loucos”. Era uma cela toda forrada que abrigava os “doidos”. Madre Glória deu assistência aos presos, visitando-os frequentemente e os ajudando na confecção de trabalhos artesanais e na venda, cujo dinheiro comprava novo material. Esse material se transformava em toalhas de mesa, porta joias, pipas, barcos feitos de palitos de dente entre outros.

Com a abertura da rodovia Rio Santos, a ALA foi extinta, pois o trabalho da congregação, era justamente auxiliar e socorrer as pessoas das praias mais afastadas, e a construção da rodovia facilitou em muito a comunicação entre as vilas e a cidade. Madre Glória manteve-se dando aulas nos colégios gratuitos, realizando trabalhos religiosos e lecionando artes e piano, uma atividade que conhecia bem. Com estudos em filosofia, latim, pedagogia, psicologia, canto, declamação, expressão corporal, teatro, dança, história da arte, pintura, desenho, literatura francesa, inglês, italiano, órgão, harmonia, composição e regência, Madre Glória sempre foi presença indispensável em todas as manifestações que contribuíram para o progresso de Ubatuba. Amante da arte, lecionou e ajudou muitas pessoas, inclusive os presidiários a viverem melhor com o manuseio dos trabalhos artesanais.
Foi uma das primeiras professoras da escola estadual “Capitão Deolindo de Oliveira Santos”. Revolucionária, promoveu em 1972, junto com seus alunos, a pintura do muro do cemitério do centro de Ubatuba com margaridas de muitas cores. Ensinou uma arte que fazia sucesso na época, a escultura na areia, e seus melhores escultores participavam de concursos municipais e regionais. Madre Glória participou intensamente da vida da cidade, notadamente nas áreas estudantil, humanitária e religiosa, contribuindo de forma decisiva com sua formação cultural, para o desenvolvimento da arte em Ubatuba, que era uma pequena comunidade, provinciana, isolada em relação dos grandes centros. Foi homenageada em vida, pela Câmara Municipal de Ubatuba, em 19/08/1980, que através do Decreto Legislativo nº 2/1980, concedeu a Madre Glória, o título de “Cidadã Ubatubense”.
Madre Maria da Glória faleceu em 26/05/1998 aos 91 anos de idade deixando importante legado cultural e artístico ao povo ubatubano. Em novembro de 1998, o prefeito Zizinho Vigneron inaugurou uma escola no bairro do Ipiranguinha, Parque dos Ministérios, que em sua homenagem chama-se Escola Municipal Madre Maria da Glória.
Curiosidade quanto à adoção de seu nome
Conta Madre Maria da Glória: “Mais tarde, na Academia José Bonifácio, de Santos, fui aluna de Benedito Calixto, e meu entusiasmo por Anchieta foi crescendo ao contemplar o famoso quadro do mestre representando o heroico poeta prisioneiro dos indígenas, fazendo das praias de Ubatuba minhas primeiras pinturas. Jorge Lima levou-me pelo Brasil afora, percorrendo as viagens incríveis do nosso incansável apóstolo Anchieta; que se tornou, então, o “Meu Herói”.
Nas vésperas de receber o hábito de noviça, pediram-me que escrevesse “o nome de guerra de meu apostolado”, isto é, o patrono que me guiasse, pelo seu exemplo, em minha carreira religiosa. Logicamente tinha de ser Irmã Maria Anchieta. Mas a madre que leu para as outras o meu bilhete, pronunciou o “chi” de Anchieta como ‘”qui”’, isto é, “Anquietá”. Foi um reboliço daqueles! – Ah, não pode ser, esta brasileirinha tão viva, tão espoleta, tão alegre, chamar-se Maria Anquietá! Não existe nenhuma Santa Anquietá! Onde ela foi buscar tal padroeira?! Acontece que na sala de reunião ninguém conhecia meu herói para poder explicar a confusão de Anchieta para “Anquietá”. Então, foi sugerido pela madre superior a trocar o nome para Maria da Glória.
Fonte de Informações:
https://ubatubense.blogspot.com.br/2009/05/madre-maria-da-gloria.html
Revista Científica Educação INEC – Edição Maio/2017, por Maria Luiza Gil de Oliveira da Motta e Ana Cabanas
EM Madre Maria da Glória – Portal da Educação de Ubatuba