A Ilha do Mar Virado está localizada na região sul de Ubatuba e uma de suas principais curiosidades foi a descoberta de um sitio arqueológico, que vem sendo pesquisado por técnicos do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP desde o início da década de 90. Já foram encontrados mais de 80 esqueletos humanos e 216 artefatos, entre utensílios e ferramentas. Segundo pesquisadores, estes primeiros moradores eram muito baixos, não viviam mais do que 25 anos e se alimentavam basicamente de frutos do mar.

Ilha do Mar Virado - Ubatuba

A Descrição Arqueológica da Ilha do Mar Virado
Com área de 119 hectares, cercada por Mata Atlântica e encostas, está situada a apenas 350 metros do continente, e por essa proximidade é um lugar muito procurado para fazer passeios de jet ski, barco e é muito conhecida por seus pontos de mergulho. A Ilha do Mar Virado, que não tem praia, mas existe abrigo nas pedras possível de ancorar uma embarcação, e algumas teorias afirmam que no passado, possivelmente a ilha fazia parte do continente.

A ilha apresenta quatro frentes diferenciadas para a captação de recursos alimentares: o costão rochoso rico em bivalves, gastrópodes, crustáceos e equinodermos associados ao ambiente de águas marinhas circunjacentes dispondo de peixes, tartarugas e mamíferos marinhos; os ecosistemas terrestres; a mata nas encostas e o brejo na área baixa.

Constatou-se a alta disponibilidade de recursos terrestres. A arqueofauna recuperada indicou que a subsistência do grupo humano do sítio Mar Virado moldou-se ao quadro da disponibilidade apresentada. O sítio Mar Virado é conchífero de formação plana com eventuais bolsões de restos de alimentos. O sítio arqueológico registra quatro períodos de ocupação: o préhistórico, o tupi, o europeu e o caiçara ou caboclo.

As ilhas continentais são assim designadas por terem origem da separação do continente por erosão de uma península primitiva ou de variação do nível do mar durante os períodos glaciais. A Ilha do Mar Virado, como a ilha Anchieta e as ilhotas de Dentro e de Fora são a continuação dos terrenos e alinhamentos das estruturas geológicas continentais.

Ilha do Mar Virado

Sítio Arqueológico Mar Virado
O sítio arqueológico Mar Virado faz parte de um Programa de Arqueologia proposto para o litoral norte do Estado de São Paulo desenvolvido pelo Museu de Arqueologia e Etnologia/USP sob a coordenação da autora a partir de 1982, contando com a participação de alunos da pós-graduação e de técnicos do MAE/USP. O Programa Arqueológico visa analisar as diversas ocupações pré-históricas dando enfoque às populações formadoras de sambaquis e aos demais sítios costeiros de
pescadores-coletores ao longo da costa paulista. Foi desenvolvida uma metodologia de campo para o levantamento e cadastramento do sítio para em seguida dar início a escavação considerando sua exposição à ação antrópica.

O Sítio Mar Virado encontra-se sobre um terraço de origem flúvio-marinha na porção NE numa pequena enseada da Ilha do mesmo nome ao sul da ponta do Cedro em altitude de 158 metros na latitude de 23o34’S e longitude 45o09’W. Com cota de aproximadamente 6 metros acima do nível do mar, apresenta na sua porção SE pequeno caimento topográfico devido a erosão superficial.

Desde as primeiras intervenções feitas no sítio arqueológico Mar Virado verificou-se a riqueza dos artefatos encontrados em superfície, ratificando as quatro ocupações distintas havidas no sítio. A partir dessas muitas estruturas em blocos de granito foram evidenciadas: louças, metais, cachimbos, cerâmicas neo-brasileira e tupiguarani e vidros; estes inseridos na camada argilosa do sítio.

As escavações do sítio foram iniciadas no final do ano 90, conquanto já estivesse vistoriado, cadastrado e mapeado bem anteriormente. O material coletado em superfície constou de ossos de peixes, conchas, espículas queimadas de ouriço, restos humanos esparsos, líticos, cerâmica corrugada, louça e vidro. E dessa diversificação de materiais foram observadas as variações temporais da ocupação humana no sítio.

Ilha do Mar Virado

O sítio arqueológico Mar Virado, embora guarde similaridades pela sua composição com os sambaquis difere em sua morfologia e se aproxima mais dos sítios tipo “acampamento” com topo plano e leves declividades nas bordas. Atinge em seu ponto mais alto cerca de um metro registrando bolsões esparsos com resíduos de alimentação. Para Simões, esse tipo de sítio nada mais é que um “sambaqui raso”, cuja definição é a melhor entre outras que conheço. No atual estágio em que se encontra a pesquisa temos registrado cerca de 5.800 artefatos confeccionados em: lítico, ossos e dentes de animais, conchas de moluscos, fragmentos de ocre, carvão e restos cerâmicos.

Material Ósseo Humano
Torna-se possível estabelecer marcadores diferenciais entre grupos que deixaram vestígios de formas de assentamentos e comportamentos simbólicos associados a caracteres culturais ou sócio culturais e a traços biológicos. Os rituais funerários da população do Mar Virado foram documentados por fotos, desenhos e registros em croquis.

O assentamento do sítio Mar Virado se deu por grupo pescador-coletor entre os anos 1546 B.P. a 550 d.C. com permanência mais ou menos de 900 a 1000 anos. Por volta do século X o sítio foi reocupado pelos Tupi permanecendo naquele local até o ano 1000 e no século XVI tivemos a chegada
do europeu. Do século XVIII até meados do século XX tivemos a presença marcada do caiçara.

(*) Sambaqui, o que é?
O sambaqui é uma palavra de origem indígena, mais especificamente, de origem tupi-guarani e possui como significado amontoado ou monte de conchas. Os sambaquis também são conhecidos como cascais, concheiros, casqueiros e berbiqueiros. Em inglês, recebe o nome de shell-mounds. Eles são encontrados mais facilmente pelo litoral do oceano Atlântico ao invés do oceano Pacífico.

Formação dos Sambaquis
No Brasil, há cerca de 5000 anos, os sambaquis foram construídos por povos que viviam próximos as regiões litorâneas e consumiam, para a sobrevivência, os moluscos e peixes que pescavam próximos aos rios e mares. Esses povos representavam uma cultura única com seus hábitos e costumes; eram povos sedentários. Utilizavam de vários recursos como a pesca e a confecção de objetos (colares, enfeites, casos, utensílios) com vários tipos de materiais como madeira, conchas, couro, fibra, ossos de animais (peixes, tubarões, macacos, porco-do-mato).

Esses povos descartavam as conchas de moluscos que formavam as imensas montanhas.  Sendo assim, entendemos que os sambaquis são formações rochosas construídas pelo homem que chegam a medir até 100 metros de diâmetro e em sua constituição encontravam restos de animais, ossos humanos, ferramentas e materiais orgânicos, que provavelmente, eram utilizadas por esses povos. Claro, que para que essa formação tenha chegado ao que é hoje, foi necessário anos, milhares de anos para formação atual – as grandes montanhas.

Os sambaquis estão espalhados por todo o mundo como os países da Europa, da América e da África e no Brasil. Os maiores encontram-se no estado de Santa Catarina, mas podemos também encontrar os sambaquis em toda a faixa litorânea, inclusive, de São Paulo como São Vicente e Iguape.

Os arqueólogos, em suas pesquisas, entendem que é bem provável que os sambaquis eram usados como abrigo ou habitações para diversas populações. Vários utensílios, objetos e ossos foram encontrados em escavações. São importantes fontes de estudo, principalmente, para entendermos a vida dos primeiros povos e como se organizavam em todo o território brasileiro, como era a alimentação e quais os conhecimentos que possuíam sobre a natureza, os animais e as doenças da época.

Como esses povos mudavam de lugar para a sua sobrevivência deixavam o local, ou até mesmo pela ocupação de novos grupos ou tribos que invadiam o lugar em busca de alimento e abrigo. Os sambaquis são fontes de minerais como o calcário, sendo assim, excelentes na época, para construção de casas.

Fontes de Informações:
http://www.colegioweb.com.br/biologia/o-que-sao-sambaquis.html
Estudo Publicado (arquivo .pdf) de Dorath Uchôa -Museu de Arqueologia e Etnologia/USP
https://www.google.com.br/maps